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Revolução e Tradição

Cesar Ranquetat Jr


De maneira geral, e principalmente a partir da modernidade, a revolução é percebida como um processo radical de transformação de uma sociedade. É um fenômeno disruptivo e eversivo de insurreição e sublevação que altera de maneira total a estrutura política e cultural de uma coletividade, ou mesmo modifica substancialmente seu sistema econômico. A mudança no regime ou sistema político e social ocorre, por exemplo, quando da passagem de um ordenamento de tipo monárquico e/ou aristocrático para formas democráticas e liberais; ou então em casos extremos a instauração de governos ditatoriais, autoritários ou totalitários. Trata-se, portanto, da destruição e subversão de uma determinada ordem social, e de uma ruptura drástica com a tradição, com a ordem natural e com o direito histórico, como foram os casos emblemáticos da Revolução Francesa em 1789 e da Revolução Bolchevique na Rússia em 1917. A Revolução na modernidade é de acordo com Jose Pedro Galvão de Sousa: “[...] subversão da ordem social e da própria ordem natural estabelecida por Deus e para o homem. O homem novo da Revolução está em oposição radical à nova criatura do Cristianismo, e ele resulta da aplicação do racionalismo à vida civil, política e social, [...]”.


Não é por acaso que as revoluções costumam apresentar um caráter antropocêntrico e secular e, assim, uma postura de antagonismo visceral com a Revelação divina e a lei natural. Almeja-se uma transformação total do mundo, da evolução histórica, do pensamento e do próprio homem. O homem é visto como o criador de um novo mundo e de uma nova sociedade. A ideia de transcendência e do sagrado, em seu sentido religioso e metafísico, são substituídas pelas ideias de progresso e futuro, de realização plena do homem na imanência. A realidade sobrenatural é afastada pela projeção na esfera terrena de todas as esperanças redentoras e emancipadoras. É no aqui e agora ou em um futuro próximo que o ser humano, unicamente com as suas próprias forças e por meio de sua ação transfiguradora, encontrará a felicidade e a plenitude existencial. Neste sentido, não é um exagero afirmar que a revolução apresenta inegáveis traços demiúrgicos e prometeicos.


Frequentemente as revoluções ocorrem de maneira violenta e súbita, mas nem sempre o fenômeno revolucionário se desencadeia deste modo. Em termos econômicos, a Revolução industrial e o surgimento e desenvolvimento do capitalismo são também exemplos de mutações radicais e integrais no campo social e das relações produtivas, que aconteceram de maneira gradual e sem o uso ostensivo da violência.


Além disso, as revoluções são antecedidas por um longo trabalho de transformação das mentalidades e sensibilidades e de penetração da nova ideologia salvadora nas mais diversas esferas da vida social. A revolução ideológica e cultural prepara e sedimenta a revolução política e social.


Cabe aqui ressaltar que, historicamente, revolução é um conceito físico-político, que originariamente tem um significado astronômico; é o movimento de translação de um astro em relação a outro e, também, o retorno periódico de um astro a um ponto da própria órbita. Trata-se, em suma, de uma noção que, num primeiro momento, referia-se ao movimento regular dos corpos celestes. Contudo, a partir do século XVI, este termo assume um sentido eminentemente político. Segundo Giacomo Marramao, trata-se da aplicação na esfera da política do esquema cíclico da revolutio. A difusão deste modelo rotatório está intimamente vinculada à experiência da Revolução Inglesa, a chamada Revolução Gloriosa de 1688. O citado autor ainda demonstra que o conceito de revolução, assim como o conceito de progresso, relaciona-se com o processo de secularização. Há, em ambos os conceitos, uma dimensão utópica e messiânica que deriva da secularização da teologia judaico-cristã. A revolução é assim uma espécie de mundanização e dessacralização da escatologia da tradição cristã, uma projeção no futuro histórico-temporal da ideia de redenção: “[...] o tema da redenção é recuperado/transvalorado no da libertação –, isto é possível somente em virtude da futurização da história introduzida pelo par – ao mesmo tempo opositivo e complementar – progresso e revolução”. O citado pesquisador também lembra que o termo revolucionário foi cunhado justamente por Condorcet, pensador francês ao qual se deve a primeira formulação doutrinária do conceito de progresso.


De acordo com o filósofo e cientista político Augusto Del Noce, a ideia de revolução pensada por Karl Marx é o ponto de chegada da filosofia do primado do devir que legitima e exalta a mudança, a impermanência, a evolução, a modificação, a alteração de todos os aspectos da realidade. Esta filosofia do devir vincula-se com a ideologia do progresso, isto é, com a ideia de que a história é linear e sempre vai para frente, avançando em um sentido de “libertação das alienações” e num irreversível caminho modernizador. Para Del Noce, o significado filosófico da história presente se revelaria no choque entre duas vias ou paradigmas metafísicos: a filosofia do primado do ser e a filosofia do primado do devir. Nesta última, toda realidade imutável e a existência de valores eternos e de uma ordem moral objetiva são rejeitadas. Além disso, a vida interior, a importância da teoria, da contemplação do real, e a busca pela verdade são rechaçadas. A procura serena e silenciosa pela essência, pelo ser das coisas, é colocada de lado e olvidada em nome de um frenético desejo de transformação do real e da fáustica pretensão de criar uma nova humanidade. Desvela-se nesta perspectiva uma mística da ação pela ação, uma fuga de si e da verdade, um ativismo militante que tudo quer contestar, refutar e modificar. A revolução, de algum modo, substitui a religião e a metafísica pela política.


Em oposição a esta postura ideológica, a filosofia do primado do ser parte do princípio de que há uma ordem eterna e imutável de valores e verdades, com a qual entramos em contato por meio da intuição intelectual. Existe, portanto, uma realidade superior, metahistórica. Para a visão tradicional, há uma primazia da contemplação da ordem do ser, uma busca pelo conhecimento e compreensão teorética da estrutura essencial do real.


Ademais, é fundamental compreender que o espírito tradicional não se caracteriza pela defesa de um determinado passado histórico ou de uma determinada instituição social ou regime político, mas pela salvaguarda de princípios eternos. Recapitulando, em estado puro o espírito tradicional significa o primado do ser, primazia do imutável, prevalência da intuição intelectual. Existência e reconhecimento pelos indivíduos e pela sociedade de verdades universais e metahistóricas que permitem aos seres humanos e culturas viverem o eterno no tempo e, enquanto eternas, estas verdades podem ser transmitidas de geração em geração.


Com base nestas observações, Augusto Del Noce assevera que as ideias de revolução e tradição não tem um significado unívoco. O sentido destes conceitos muda completamente segundo os dois fundamentais contextos filosóficos nos quais se encontram inseridas: a filosofia do primado do ser e a filosofia do primado do devir. No contexto da metafísica do ser, a ideia de revolução apresenta um sentido específico e revelador: coincide com a ideia de restauração de uma ordem ideal eterna, que teria sido violada. É uma “revolução moral e espiritual”, porque requer a fidelidade aos princípios metahistóricos. Trata-se, portanto, de promover uma ação que é moralmente necessária; e que é uma revolução no sentido de que está destinada a demolir um sistema global que já não é mais possível e desejável reformá-lo, porque qualquer tipo de reforma colaboraria apenas para torná-lo pior e mais inumano. Por isto, é uma revolução que coincide com uma restauração de valores e com uma purificação da tradição, daquela renovatio, entendida como retorno aos princípios, segundo uma expressão da qual se serviu também o papa Leão XIII.


Seguindo similar linha de pensamento o filósofo católico Silvano Panunzio, lembra que não existe uma antítese absoluta entre tradição e renovação, advogando um renovamento conforme a tradição. Considera, deste modo, que a máxima do papa Leão XIII “vetera novis augere” (que pode ser livremente traduzida como aumentar o antigo com o novo) é uma intuição de grande relevância doutrinária e prática. O verdadeiro desafio é adequar o presente, o atual, com o passado e com o eterno, o humano com o divino, a dimensão “material e social” da existência com os valores do espírito”, pois, em muitas ocasiões a Tradição é equivocadamente confundida com o medievalismo e o reacionarismo nostálgico, com um reviver de todo artificial de tempos e modos de vida que não podem ser eternos, de vestígios caducos de outras eras. Por outro lado, a renovação é identificada erroneamente com o evolucionismo, o progressismo profano, cientificista e relativista. Os defensores da renovação pela renovação caem na armadilha do modernismo, não percebendo que os princípios metafísicos são imutáveis, não estão sujeitos ao relativismo histórico, mas ao contrário do que estes pensam, cabe à Tradição sacra informar e orientar em um sentido superior à história e à ordem social. A síntese entre Tradição e Renovação é essencial. Resumindo este tópico: o ponto Alfa é a Tradição, o ponto Ômega é a Renovação, a restauração. Traditio e Renovatio são complementares. A Renovação não é o progresso indefinido e material; de outra parte, a Tradição não pode ser concebida como algo mumificado, museológico, uma espécie de prisão circunscrita a uma época ou determinada realidade contingente. É iluminadora a realidade de que o Cristo Senhor afirma ser o Alfa e o Ômega, personificando de maneira concreta, humana e divina, a Tradição e a Renovação simultaneamente. Em suma, a Tradição é dinâmica, viva e operativa porque aponta, sinaliza, para uma renovamento, uma restauração integral, e esta Renovação é autêntica, pois, parte e se funda na Tradição.


Por sua vez, conforme explica Del Noce, na filosofia do primado do devir a ideia da revolução está relacionada com a noção marxista de uma passagem de uma filosofia especulativa e teorética para uma filosofia da práxis, da ação concreta e transformadora do mundo. A revolução é, precisamente, esta práxis da filosofia, conforme a célebre frase de Marx: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo”. Sendo assim, o racionalismo construtivista moderno em suas formulações marxistas, neomarxistas e neoiluministas, apresenta-se em seu aspecto último como uma filosofia da ação contra a filosofia da contemplação.


A categoria de revolução, de acordo com esta arquitetura teórica e conceitual, pode ser definida como substituição da busca metafísica, da procura da ordem ao qual o real está subordinado; com a consequente obrigação moral para o homem de conformar-se ao mesmo, por uma instauração de uma metahumanidade, caracterizada pela aquisição por parte do homem, ou melhor, da humanidade, em sua totalidade como sujeito coletivo daqueles poderes dos quais o ser humano teve que alienar-se para projetá-los em Deus. Sua realização implica em uma quebra radical na história; segundo a linguagem dos autores marxistas, a passagem da pré-história para a verdadeira história, da abolição daquela situação de dependência que até agora caracterizou a realidade humana e que o pensamento tradicional converteu em natural e eterna, mas que, segundo a visão marxista e neoiluminista, é na realidade provisória. A filosofia do primado do devir alcança seu ponto conclusivo com a ideia e a concretização da revolução. O homem seria capaz de autoredenção, ou seja, de conseguir sua salvação neste mundo mediante a ação e, deste modo, o reino da perfeição na terra seria obtido através da vontade demiúrgica do ser humano liberto de qualquer trava moral, metafísica ou religiosa. Estaríamos, de acordo com esta perspectiva subversiva, diante de uma nova criação, de uma nova era absolutamente distinta de todas as outras.


A Cidade de Deus já não mais se situaria em um mundo espiritual, mas estaria localizada na própria história, neste mundo material. A existência humana e a estrutura da realidade são percebidas de uma maneira puramente “horizontal” e mundana, de modo que a ordem cósmica e divina é negada, assim como a ideia da existência de valores universais, absolutos e eternos. Para a mentalidade revolucionária moderna e secular tudo está condicionado pela história, pelo tempo, pela sociedade, inclusive o reino das ideias, valores, normas, leis e princípios. Relativismo moral e cultural, historicismo e sociologismo são elementos centrais deste tipo peculiar de mentalidade.


Como estou a explicar neste texto, existe uma interpretação moderna e racionalista do conceito de revolução e uma visão “clássica” e tradicional acerca desta categoria que, vale sublinhar, apresenta uma inegável dimensão metapolítica. Sob este aspecto, não seria possível afirmar a existência de revoluções niilistas, destruidoras e antitradicionais, mas também de revoluções restauradoras e retificadoras? O despertar do espírito tradicional nesta etapa crepuscular do mundo não é uma realidade revolucionária? As revoluções modernas são fundadas em um pensamento de negação e de desvinculação dos homens e sociedades de suas raízes tradicionais, porém poderia existir uma revolução ancorada em valores positivos, reconstrutores e renovadores? Se a modernidade é a concretização do pensamento de negação, o que deve surgir para que esta seja transcendida não é uma volta nostálgica ao passado, algo lógica e sociologicamente impossível, mas uma atualização e redescoberta do eterno. Não me parece fora de propósito e algo meramente utópico e romântico considerar a possibilidade de uma revolução tradicional, partindo, é claro, de uma concepção clássica e da filosofia do primado do ser.


Se a modernidade, considerada em seu sentido axiológico, é por essência uma força subversiva e “revolucionária”, uma forma de pensamento e postura que procura superá-la necessita retornar “às fontes” e fazer reviver os princípios perenes do espírito que foram negados pela subversão. Conservar a modernidade é preservar o sutil influxo devorador das forças antitradicionais; não basta conter com esporádicos e frágeis freios o avanço da desordem e do caos. Como adverte Silvano Panunzio, introduzir artificialmente um verniz de moralidade e religiosidade na decadente sociedade burguesa e liberal é algo que equivale a dar uma injeção de adrenalina em um corpo espiritualmente e fisicamente doente que se encontra em um estado de coma profundo. O fato é que as noções de uma irreversibilidade dos processos históricos e sociais, e da modernidade como um valor indiscutível, dogmático, inerentes às linhagens de pensamento laicistas como o neomarxismo e o neoiluminismo, precisam ser deixadas de lado.


A revolução tradicional, como lembra Silvano Panunzio, não se identifica em nada com a confusa e anárquica rebelião subversiva puramente humana e terrestre. Existe, desta maneira, uma tentativa de síntese do novo com o “velho”, da revolução com a conservação dos princípios perenes, da liberdade com a tradição, dos valores espirituais com os princípios de justiça, solidariedade e cooperação social. Ora, a reconstrução com justiça do edifício social faz parte do “programa” do Evangelho. Uma verdadeira revolução, no sentido de retorno às origens, não pode descuidar das questões sociais, materiais e econômicas deste mundo. Ao lado de uma Tradição sacra e metafísica existe uma Tradição social e comunitária de origem grega, romana e cristã, em outros termos, há uma ampla e profunda antropologia e sociologia tradicional que urgem ser resgatadas. O cristão deve ter a coragem de defender uma visão orgânica, hierárquica e sacral da sociedade, estribada na tríade Sacerdotium, Regnum e Ars. Explicando melhor e com uma linguagem mais didática: uma sociedade tradicional ancora-se em um estamento sacerdotal, espiritual, na função política da realeza e da nobreza guerreira e na função econômica do estamento corporativo, artesão, produtor. É esta permeada por um senso de um destino coletivo superior, por um sentido de missão social e comunitária que, vale sublinhar, é guiada sobrenaturalmente pelo ideal da Realeza de Cristo. Neste sentido, o problema espiritual da ordem interior tende a ser conciliado com a confrontação serena e prudente da questão gravíssima da justiça social, da prepotência do capital e do demonismo da economia e da técnica, ou seja, do predomínio avassalador dos valores mercantis, dos imperativos tecnológicos e científicos e da lógica utilitária em todos os aspectos da vida.


Em síntese e como conclusão, para o espírito tradicional a revolução pode ser entendida como uma restauração dos princípios metafísicos e dos valores eternos, um retorno a um estado de ordem, harmonia e normalidade. É extremamente sugestivo que revolução seja uma palavra que deriva do latim revolutio e de re-volvere, que, grosso modo, significa o ato de revolver, o qual pode apresentar o sentido de uma volta, de um regresso a um ponto de partida e de um ressurgir daquilo que foi esquecido ou ocultado. Toda verdadeira conversão é um retorno à fonte, uma revolução interior, espiritual, que se projeta no mundo externo revitalizando e reformando moralmente as estruturas sociais, políticas e econômicas. Não tenho dúvidas: a tarefa laboriosa a ser empreendida não é de uma conservação pura e simples, mas de uma árdua e paciente reconstrução tradicional, ação está que se fundamenta em uma cosmovisão dinâmica e criadora. Com efeito, não se trata de se dirigir a um determinado tempo histórico, a uma idade passada que já foi superada, de um regresso à formas já anacrônicas e empoeiradas, mas de apelar e buscar com coragem e energia o que está no “alto”, recordando sempre que os princípios da Tradição sacra estão para além da história e de uma específica e particular cultura, apresentando um caráter de universalidade, perene atualidade e um conteúdo ideal e normativo. A revolução tradicional procura com calma e firmeza ordenar o mundo provisório e contingente dos eventos históricos e temporais de acordo com o eixo fixo, estável e imutável do sagrado. Revolução de restauração da lei divina e de retorno à ordem. Revolução que parte do alto e que busca reorientar o mundo social e político em conformidade com o que é do “alto”, reconectando a terra com o céu, o tempo com a eternidade e o homem com o divino.




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