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O Poder Americano

A obsessão antiamericana de certa esquerda romântica é sem dúvida alguma um erro geopolítico primário, uma postura inaceitável e imatura que, dentre outras coisas, expressa um complexo de inferioridade frente ao gigante do Norte. Mas há outra postura igualmente equivocada que consiste na exaltação acrítica e eufórica da civilização americana. Fazer dos Estados Unidos da América um paradigma cultural e político, um modelo societal a ser imitado pelo Brasil e por outros países é um erro cabal; uma demonstração de subserviência a uma nação e a um tipo de sociedade com origens históricas e sociológicas completamente distintas dos países que compõem o universo ibero-americano. A obsessão antiamericana é claramente um engano, mas tentar curar este erro com outro erro, ou seja, a imitação, idolatria e transposição mecânica e artificial dos valores e do modo de organização social e política norte-americana para sociedades com outro tipo de configuração cultural é uma confusão que precisa ser dissipada em certas fileiras. Determinadas ilusões e falsas alternativas necessitam ser deixadas de lado. Os “poderes fortes” deste mundo são parte da estrutura globalista, e não muralhas de resistência.


Uma grande potência mundial em declínio, como é o caso dos EUA, que está a perder prestígio, força econômica e zonas de influência é capaz de fazer qualquer coisa. A história demonstra isto de maneira claríssima: o choque entre potências em ascensão com poderes em descenso. Recordo aqui a guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta e as guerras Púnicas entre Cartago e Roma.


O fato é que, para além de outros motivos e variáveis, no mundo atual os interesses e estratégias geopolíticas e geoeconômicas são dominantes, sobrepondo-se a qualquer outro fator; de maneira que, inclusive, a própria religião e a “cultura” podem ser utilizadas e instrumentalizadas para fins de recuperação de poder econômico e influência política. Isto explica, em parte, a obsessão dos EUA em relação à China e à Rússia, que, inegavelmente são potências militares e econômicas, as quais estão a ameaçar a decrescente supremacia do Tio Sam e de seus interesses no mundo.


Parece-me que cada vez mais se evidencia uma impetuosa disputa de poder global entre estas potências, embate este que transcende os aspectos doutrinários, não obstante o uso por parte destas nações de adornos e símbolos ideológicos. Mas, cabe lembrar, os elementos valorativos são nestas circunstâncias apenas camuflagens e elementos de sedução que se inserem em uma mais vasta estratégia de controle e poder. Os elementos decisivos são a economia e a estratégia geopolítica. Estamos diante de uma guerra híbrida e de baixa intensidade com vários polos diretores, múltiplas linhas de ação e diversas “frentes de batalha”. Ademais, em que pese à ação de organismos supranacionais e de agentes econômicos transnacionais, os Estados nacionais continuam a desempenhar uma poderosa influência na arena mundial, em razão de exercerem o monopólio do uso legítimo da violência e possuírem forças materiais, técnicas e ideológicas grandiosas. Além, é claro, da ação dos serviços de inteligência, do aparato de propaganda e da diplomacia das nações dominantes. Nestes casos, atuam por trás dos bastidores as sutis e sibilinas armas da desinformação, de manipulação psicológica, de condicionamento mental e de controle do imaginário social.


Importa sublinhar que neste texto, não estou realizando uma avaliação moral acerca da bondade ou maldade de certas nações e ideologias, mas tão somente apontando e chamando a atenção para fatos sociológicos objetivos e concretos.


Elenco agora alguns dados importantes para reflexão:


O Tio Sam possui mais de 800 bases militares espalhadas por todo o mundo. É a nação do norte que tem uma influência decisiva na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Foram os EUA que arquitetaram e construíram poderosos organismos econômicos e financeiros globais como o Banco Mundial e o FMI. Parte importante das grandes multinacionais foram criadas em solo americano e, também, possuem como principais acionistas cidadãos deste país. As maiores empresas em gestão de investimentos que manejam e controlam o mercado financeiro internacional como a BlackRock, a Vanguard, a BNY Mellon IM , a J.P. Morgan AM e a Capital Group são americanas e, também, ligadas ao Reino Unido, eterno parceiro da potência da América do Norte. Além disso, as mais importantes agências de noticias, os grandes grupos de mídia e publicidade, assim como a indústria do cinema são capitaneadas pelo Tio Sam. Não poderia esquecer, evidentemente, que, os EUA dominam os ciberespaços através de plataformas digitais como o Google, o Facebook e o Twitter. Acrescento, também, que são os gigantes do norte que, até certo ponto, criaram o “marxismo cultural”, a ideologia de gênero, o feminismo radical, a utopia transhumanista, o neopragmatismo de Richard Rorty, o rock, o rap, o hip hop, a MTV, a Netflix o CFR, a Comissão Trilateral, as Fundações bilionárias que sustentam o discurso politicamente correto, o MK-ULTRA, a Operação Paperclip e as técnicas de Mind Control. Estes são apenas alguns dados objetivos que atestam a existência concreta e operativa de um poder econômico, financeiro, militar, tecnológico e cultural nada desprezível.


Detalhe final: não sou americanista nem antiamericanista, nem muito menos russófilo e sinófilo, mas simplesmente um realista em sociologia e politologia. O realismo ensina que no mundo atual a vida política e os conflitos entre as nações são fundamentalmente e primordialmente lutas por poder e influência. Visões maniqueístas são incapazes de apreender e explicar as complexas rivalidades existentes no tabuleiro mundial, pois, partem de uma visão moralista, enviesada e redutora do universo geopolítico; percebendo equivocadamente e de maneira unilateral a presença do bem, que é uma categoria moral e não política, num grupo determinado de nações e a encarnação do mal em outro conjunto de países. As coisas não são também simples assim.




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