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Noções políticas obsoletas



Cesar Alberto Ranquetat


A insistência na utilização, nos debates públicos, de polaridades conceituais como capitalismo x comunismo, comunismo x anticomunismo, fascismo x antifascismo e direita liberal- conservadora x esquerda marxista, pode mais confundir do que explicar o que realmente está a ocorrer hoje no mundo.


Além disso, suspeito que usar e abusar destas noções ideológicas da época da Guerra Fria, onde o mundo estava divido numa disputa pela hegemonia global entre duas potências - os Estados Unidos e a União Soviética -, pode ser como manobrar e jogar no campo semântico e no horizonte cognitivo do inimigo, aceitando os pressupostos, os conceitos e os valores da modernidade iluminista e seus desdobramentos dissolutivos no niilismo pós-moderno. São essencialmente categorias obsoletas que, via de regra, mais servem para mobilizar emocionalmente determinados grupos políticos e projetos de poder, do que descrever objetivamente os atores em luta. Sobre isto indico fortemente a leitura dos brilhantes ensaios do cientista social mexicano Adriano Erriguel (https://elmanifiesto.com/tribuna/6104/deconstruccion-de-la-izquierda-posmoderna-i.html)


Ora, o que se apresenta aos nossos olhos não é propriamente o “marxismo clássico” ou o velho comunismo de matriz leninista ou stalinista, mas uma esquerda pós-moderna e desconstrucionista que, no fundo, pouco tem de propriamente marxista no sentido ortodoxo. Concretamente possui uma visão de mundo e é impregnada por um imaginário liberal-libertário cosmopolita, e tem como marco histórico as revoltas estudantis da década de 1960, em Paris e em Berkeley, que apresentaram um difuso e paradoxal caráter anárquico, vitalista e radical. Ademais, não prega e milita por uma revolução socialista contra o sistema de produção capitalista, mas busca por uma mutação radical da natureza humana, com um discurso e uma prática política centrada na ideia de uma “liberação e emancipação” dos indivíduos dos valores tradicionais. Do marxismo ortodoxo sobrou tão somente certa retórica e determinados símbolos mobilizadores que, contudo, são funcionais aos interesses do projeto ideológico mundialista, multiculturalista e progressista.


A esquerda desconstrucionista, como salienta o já citado sociólogo, serve ao único sistema que, de fato, faz tangível o ideal utópico de uma liberação individual indefinida: o liberalismo libertário no âmbito cultural e o liberalismo na esfera econômica; ou seja, o turbocapitalismo global em seu estágio final de desenvolvimento. Além disso, é necessário ressaltar que esta nova esquerda institucionalizou-se e foi completamente integrada e absorvida no sistema capitalista liberal transnacional. É bastante fácil perceber isto, basta ligarmos a televisão e observarmos com certa atenção o tipo de entretenimento e “mensagem cultural” fornecida pelo establishment para notar como existe uma fusão entre o radicalismo de esquerda e os interesses econômicos e simbólicos de grandes grupos multinacionais.


Entretanto, como explica Erriguel, é já uma rotina mental da direita categorizar como comunista tudo o que ela não gosta, assim como a esquerda adora rotular de fascista todos os agentes que não aceitam a sua cartilha ideológica, acrescento eu. Estarão lutando ambos os espectros políticos contra fantasmas? Não seriam estes, fascismo e comunismo, projeções imaginárias de agentes políticos que insistem em contemplar o mundo com os olhos e as categorias mentais de outras épocas? Cada lado procura, evidentemente, “distorcer” as reais pretensões do outro, vendo, portanto, no adversário um simulacro. O acirramento das controvérsias não levaria a cada bando a interpretar de seu próprio modo o sentido das noções, fazendo com que a ligação das palavras e dos conceitos com a realidade se eclipse? Quando falam acerca do comunismo e do fascismo, do capitalismo e do marxismo, os agentes em disputa estão a dissertar sobre o mesmo objeto, ou melhor, sobre a mesma coisa? Ao etiquetar o antagonista com estas noções não estaremos estimulando um debate interminável, estéril, uma espécie de “diálogo de surdos” onde os dois lados falam e ninguém se entende? Estamos diante de um “jogo de espelhos”? Por exemplo: quando a esquerda tupiniquim e mundial em uníssono e de maneira entusiasmada define Bolsonaro e Trump de fascistas ela está afirmando algo de verdadeiro? Claro que não, ela erra grosseiramente o alvo. Por sua vez, quando setores da direita brasileira qualificam figuras políticas ambíguas como Ciro Gomes, Marina Silva, João Dória e até mesmo Putin de comunista ela diz algo de substancial e objetivo? Também não.


Para além desta polêmica sobre o “sexo dos anjos” e a significação dos conceitos e seu vínculo com a realidade, entendo que, do ponto de vista prático e estratégico, emerge destas contendas um problema sério: em qualquer embate político o primeiro passo é identificar com precisão e clareza o verdadeiro inimigo.


O fato é que o real adversário ideológico e espiritual das forças dissidentes é a modernidade política que oscila entre o individualismo liberal e o totalitarismo, e, ainda, a superclasse oligárquica hipercapitalista e mundialista que, resumindo o debate, tem na esquerda pós-moderna um forte aliado que atua como uma espécie de acelerador revolucionário, isto é, como força de dissolução dos últimos obstáculos que ainda impedem o reino planetário do supercapitalismo global e, assim, o império absoluto da técnica e da economia.


Acelerador este que, cabe enfatizar, prepara a atmosfera psíquica e o clima cultural propício à consolidação da "sociedade aberta” globalista, totalmente secularizada e, deste modo, facilmente sujeita ao advento e a consolidação de uma nova pseudoreligião mundial, sincrética, naturalista e telúrica que substituirá as religiões tradicionais.



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