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A nova esquerda e a sociedade de consumo


Cesar Ranquetat Júnior

Uma chave para a compressão da esquerda radical chic como um instrumento necessário e indispensável para a formatação de uma sociedade civil global é a ideia de inclusão social. Observem: a esquerda pós-moderna não almeja uma transformação radical da ordem social capitalista. Mas, busca principalmente incluir os "excluídos” e "marginalizados" no interior da sociedade de mercado.


Inclusão no mundo das novas tecnologias e na cultura do consumo; fazendo com que ocorra com cada vez mais pressa e intensidade uma "democratização" do acesso aos bens materiais e uma participação inclusiva dos outrora "excluídos”, nas redes globais de comunicação. Isto parece bacana e bonitinho, porém existe por trás disso uma espécie de jogo mágico e alquímico que agrada muito os donos do grande capital. Trazer para o centro da estrutura de poder neocapitalista e para o âmago da sociedade de consumo os que estão na periferia do sistema é simplesmente abandonar a revolução e a ideia de uma nova ordem econômica socialista. É capitular frente ao poder do mercado e da ordem social existente.


Em nenhum momento verifica-se no discurso e nas práticas da esquerda pós-moderna e foucaultiana um questionamento integral dos princípios que fundamentam e orientam o neocapitalimo digital e a ideia de uma governança global, muito pelo contrário. O supercapitalismo mundial, tecnocrático e cibernético, instrumentaliza as pautas desconstrucionistas e identitárias da nova esquerda. Absorve seus slogans e usa para fins comerciais e de controle social os anseios de emancipação, liberdade e empoderamento. Integra ao seu cardápio híbrido, mercantilista e cosmopolita os valores e práticas propagadas pelos arautos da sociedade cibernética e do mundo fluído. Integração e inclusão no novo mundo da comunicação instantânea e global, na cultura da dissolução dos sujeitos e da desintegração das identidades fortes que, como elementos residuais e antiquados, impedem o trabalho de liquefação universal.


Tudo isto em nome de uma flexibilização e de uma suposta democratização e liberalização dos fluxos de informação, do capital e das normas de comportamento.


O cerne do projeto é a expansão, por todos os meios e formas, de uma ideologia multicultural e de pluralismo limitado e seletivo, que, com um verniz libertário, fagocita os atores, forças e ideias vistas como “nocivas" ao bom funcionamento da nova sociedade global da informação.


A nova esquerda burguesa e boêmia aceita e incorpora ao seu arsenal ideológico a parte "negativa" do marxismo, a qual consiste principalmente na relativização, desconstrução e dessacralização dos valores perenes. Porém, não compra a ideia messiânica secularizada do comunismo "ortodoxo" de uma revolução mundial total e salvadora. Desempenha assim um papel unicamente corrosivo e desestabilizador dos valores tradicionais; desistindo da sempre perigosa e arriscada luta revolucionária contra o sistema. Favorece, deste modo, a consolidação de uma sociedade inteiramente dominada pelos imperativos econômicos e tecnocráticos e por um radical individualismo hedonista.

Ora, sem o vértice e os cumes espirituais sobra apenas a base material, o imanente e as pulsões desordenadas do subsolo da alma e do coletivo que, evidentemente, acabam por desintegrar a personalidade e fragmentar a sociedade.


Ao combater a Tradição e os valores do espírito, trilha um arriscado caminho que desemboca para além da dialética do negativo e da desconstrução, aproximando-se do vazio, do nada.


A esquerda não quer mais transformar o mundo, mas participar ativamente com as elites globalistas no processo de desconstrução da realidade com a total virtualização, digitalização e fluidificação das relações sociais e da própria identidade humana. Perigoso caminho que conduz ao abismo.

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