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Discussões virtuais

Updated: May 8

Cesar Ranquetat Jr



É um desperdício de tempo e energia se envolver em discussões e briguinhas nas redes sociais. Estas disputas são estéreis, além de ser um poderoso elemento de dispersão mental. As contendas intermináveis entre facções e grupos dos mais diversos, e sobre todo tipo de assunto é uma atitude inútil e nada construtiva. Discutir sempre, com qualquer indivíduo e acerca de qualquer tema, parece ter se tornado o esporte e a distração preferida do homem contemporâneo no mundo digital.


Pior ainda é julgar, criticar, acusar e condenar de um modo categórico pessoas de carne e osso, muitas vezes irmãos na mesma fé, a partir de um sistema abstrato de ideias. Quem julga e condena é Deus, e não os homens, não devemos nos colocar no lugar do Altíssimo. Isto é orgulho e amor próprio desmedido. Além do mais, o Deus cristão é o Deus do amor e da misericórdia, que abraça os homens mesmo com as suas limitações e imperfeições e que, portanto, está sempre aberto ao ato de perdão do pecador.


Ora, qualquer filosofia, doutrina política e ideologia é tão somente um modelo lógico, ou melhor, um esquema conceitual com seus pontos positivos e negativos. Ideias e conceitos não são indivíduos, quando sobrevoamos alturas por demais abstratas corremos o risco de perdermos o contato com as coisas e o sentido da autoconsciência, vivendo num mundo paralelo de sonhos doutrinários irrealizáveis e de categorias supostamente puras e imaculadas.


Tecer considerações e decretar sentenças acerca de um homem a partir de um critério puramente teórico, formal e apriorístico é colocar as ideias acima da realidade e da complexidade de um indivíduo que sofre, alegra-se, têm defeitos e virtudes como qualquer um. Este moralismo e formalismo de tipo kantiano, próprio da modernidade secular, domina boa parte dos debates públicos. Invariavelmente, a redução depreciativa de uma pessoa tem por motivação o ressentimento, a paixão de vilanizar e arrastar para a condição de lodo e de “águas inferiores” os homens que estão em busca da verdade e da ascensão espiritual. Os que são levados ao triste estado de endurecimento da alma, sendo assim, cegados pelo rancor e pela ira permanente, correm o sério risco de se perderem nos meandros labirínticos da intriga, do ódio ciumento e da mentira.


Converter um ser, um indivíduo, numa abstração conceitual é perder a consciência de sua concretude e, assim, de sua humanidade. O abstratismo é um elemento central do racionalismo moderno. Transformar pessoas em números, peças, fórmulas e etiquetas ambulantes é um caminho sem retorno, não podemos esquecer as terríveis experiências políticas totalitárias do século XX, que, dentre outros aspectos, fundavam-se em uma visão esquemática, redutora e quantitativa da realidade.


É correto avaliar e julgar ideias, mas é profundamente anticristão e anti-humano estar sempre pronto a condenar ao inferno pessoas que, às vezes, sequer conhecemos pessoalmente. O denuncismo e o “dedo acusador” são posturas incompatíveis com o espirito cristão de generosidade e caridade. Cristo estendia a sua mão salvadora aos doentes, pecadores e as prostitutas. Um indivíduo doente fisicamente e espiritualmente, e alguém que está ainda preso às armadilhas do Diabo, imerso nas aguas lamacentas e subterrâneas, enfeitiçado pelas trevas exteriores, precisa do nosso auxílio e da nossa atenção amorosa, e não de um olhar frio de suspeita e de presunçosa superioridade moral. É fácil criticar e julgar, é uma postura muito cômoda. Difícil é apontar soluções, alternativas e apresentar outras sendas e caminhos nas horas difíceis e em tempos confusos.


Cristo nos chama ao arrependimento e a conversão interior; exortando que o nosso coração duro transforme-se em um coração de carne, manso e humilde. A frieza gélida, a ausência de calor da alma, a falta do sentimento vivificante e criador, assim como a inexistência de certa flexibilidade, abertura e disponibilidade nas relações humanas concretas não é sinal de força interior, mas de uma dureza e rigidez cadavérica que, frequentemente, serve como um manto que encobre fragilidades e uma enorme insegurança e incerteza existencial. A insuficiência ontológica e a impotência moral facilmente convertem-se em arrogância e prepotência. A petrificação interior e exterior é a antítese da luz e do fogo do espírito. Quem sabe quem é e o que quer na vida, quem está convicto da verdade e da força irradiadora de seus princípios, não precisa a todo o momento da aprovação e do aplauso da plateia.

A tagarelice infernal, a verborragia, a exaltação imaginativa, a intemperança verbal, a cavilação e o onanismo mental não são sinais de uma alma integrada e de uma personalidade forte e ordenada. O homem equilibrado fala somente quando é necessário, meditando sobre o que vai dizer, como vai dizer e a quem transmitirá suas impressões e mensagens. Fala quando é necessário fazê-lo, pois pensa o essencial, descartando as escórias verbais e os pensamentos sinuosos e mefistofélicos. Fala, pensa e age com certa coerência, clareza, serenidade, simplicidade e franqueza. O que fala algo, mas não cumpre, agindo de um modo contrário ao que foi proclamado e ostentado, vive uma vida de aparências e ilusões enganosas. A nobreza da alma não se encontra em formas externas ilusórias e passageiras, nem em certo intelectualismo pedante que se compraz em vãs especulações pseudofilosóficas, mas na busca gradual e silenciosa por uma verdadeira transformação do estilo de vida, em uma mudança de comportamento e de atitude em face da existência.


A prudência e a vigilância acerca do que pensamos e sobre o que dizemos é um percurso essencial para o nosso crescimento interior. Não há ação justa e reta sem um pensamento e uma maneira de se expressar que também sejam claros, ordenados e retos. O uso de um palavreado vulgar e chulo, a ausência de sinceridade na comunicação, a atitude ambígua, oblíqua e contraditória e a falta de fidelidade à palavra dada são traços do homem medíocre de nossa época. Evapora-se por completo a antiga ética da honra, que se ancora na fidelidade, na gratidão e no princípio da reciprocidade e do respeito mútuo entre cavalheiros.


O tipo humano que predomina em um mundo em decomposição é extremamente rápido em arranjar desculpas e justificativas para as suas falhas e erros, inculpando reiteradamente os outros e o mundo por todos os males. Importante sublinhar que aqui não estou me referindo ao indivíduo A ou B, mas a um estado de espírito, a uma forma de mentalidade, a um tipo de caráter que parece predominar em uma cultura fugaz e espiritualmente vazia como a nossa.


Diante de um mundo mecanizado, onde os problemas, as incertezas e as angústias se multiplicam, não é raro que pululem as falsas e fáceis rotas de fuga. Neste sentido, o fanatismo, qualquer forma deste, é a outra face do vazio interior e espiritual. O problema é que este, via de regra, cega as pessoas. O grande filósofo católico francês Gabriel Marcel, afirmava que a consciência fanatizada é uma paixão que se baseia no medo, mas que, contudo magnetiza os indivíduos:

[...] implica um sentimento de insegurança que não se reconhece e se extravasa em agressividade. Esse medo secreto explica que o fanatismo implique sempre a recusa de pôr em discussão e é sobre a essência dessa recusa que devemos interrogar-nos.


A mente fanatizada é impaciente, não dialoga, foge da confrontação racional; prefere xingar, litigar, denunciar e demonizar o contendor. Ela é insensível a tudo que não gravite no seu campo de atração. Como explica Gabriel Marcel, ela é uma forma de consciência desfocada que, ao invés de preocupar-se com problemas reais e concretos, com pessoas e coisas, cria focos imaginários de atenção. Deste modo, a faculdade da imaginação substitui o entendimento racional; é o reino das construções mentais e das meras opiniões pessoais e subjetivas sem conexão com o real. Sobre isto assevera o pensador católico:


O fanatismo é a opinião levado ao paroxismo com toda a cega ignorância de si mesma. Observemos ainda que, seja quais forem os fins que o fanático se propõe ou crê propor-se, ainda quando julga querer aproximar os homens, só pode separá-los; como não pode acomodar-se com essa separação, acaba, [...] por suprimir os adversários e para isso procura uma imagem tão materializante e degradante quanto possível. Na realidade só os concebe como obstáculos que devem quebrar-se ou derrubar-se, pois tendo deixado de proceder como ser pensante, perdeu a mais leve noção de um ser pensante fora dele mesmo. É, pois, perfeitamente compreensível que desqualifique previamente por todos os meios os que quer exterminar. Reencontramos aqui as técnicas de aviltamento.


Como o Édipo do mito grego que, movido pelo o horror e o desespero, arranca seus próprios olhos com a finalidade de não reconhecer os seus erros e, assim, confrontar-se com o “espelho da verdade”, o fanático teimosamente recusa-se a ver, a perceber a realidade, fechando os olhos do espírito. No lugar da confissão humilde dos desvios, prefere insistir na mentira e no autoengano, apegando-se obstinadamente às ideias falsas que o impedem de desvendar e compreender a si mesmo e o mundo.


Eu, particularmente, não estou interessado em polemizar e afrontar indivíduos e grupos, mas apenas compartilhar com os amigos e conhecidos o que tenho meditado, pesquisado e estudado. Não sou dono da verdade e não tenho a pretensão de convencer as pessoas, e muito menos quero arregimentá-las para formar um partido, seita ou movimento político. A política cotidiana não é algo que me preocupe. Não estou aqui a ostentar virtudes e exibir “musculatura espiritual”. As tendências e impulsos nocivos, apontados neste texto, evidentemente, também estão presentes em minha alma, mas tento com o auxilio de Deus dominá-las. Controlar nossos monstros interiores é uma via necessária para o amadurecimento espiritual.


Pergunto: os que estão sempre prontos a acusar e lançar pedras contra os outros, adotando uma posição de eterna desconfiança e de polícia do pensamento em busca pressurosa por “heresias”, os famosos “cruzados e revolucionários de internet”, estarão de fato preparados para uma guerra real e para o heroísmo cotidiano? A guerra verdadeira é a que se combate no mundo real, e que se trava primeiramente no interior da nossa alma contra o Dragão do Ego e suas pulsões autodestrutivas, e não atrás do computador e do celular contra fantasmas e projeções mentais. O resto é brincadeira e narcisismo infantil.






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