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Confusões ideológicas

Cesar Ranquetat Jr


Um dos traços essenciais de nossa época é o amplo grau de desorientação doutrinária e confusão ideológica e cultural disseminado em vários estratos sociais. Isto ocorre principalmente entre as classes falantes e os agentes políticos, responsáveis pela construção dos consensos e pela formação das crenças, valores e convicções que acabam por influenciar decisivamente os rumos de uma determinada sociedade. A anomia social que corrompe e dissolve os vínculos comunitários está intimamente conectada com a desordem nos espíritos, desembocando no estado de anarquia mental e desequilíbrio interior que é próprio de uma idade crepuscular como a nossa. Era das incertezas e da confusão semântica e intelectual global.


De maneira sintética, tratarei de expor alguns exemplos e desenvolver certas reflexões que ilustram este quadro de desestruturação cognitiva e predomínio de perspectivas unilaterais e reducionistas que, de um modo direto ou indireto, acabam por afetar o tecido social.


Para começo de conversa, o problema principal das análises abstratas sobre as ideologias é a premissa de que todo discurso ideológico é em si mesmo e necessariamente algo negativo e destruidor e, ainda, que o pensamento ideológico somente existiria no outro, no inimigo político ou no adversário intelectual. Não seria esta uma estratégia de evacuação do impulso de luta por um ideal e de procura por alternativas, bem como de mudar para melhor as comunidades na qual vivemos? Forças renovadoras estas existentes no coração humano.


Ora, as ideias, doutrinas, crenças e valores não caíram do céu. São, na verdade, o produto de um determinado contexto social e de um campo de lutas políticas. Foram criadas por sujeitos reais que viviam e foram condicionados por uma específica atmosfera cultural. Negar o vínculo do pensamento com a realidade social é um modo de ideologia. Além disso, desde uma perspectiva antropológica, qualquer indivíduo ou coletividade configura seu modo de vida com base em uma estrutura de símbolos e uma cosmovisão particular. Estas são, sob certo aspecto, ideologias. A ideologia, entendida como um dispositivo de ideias e crenças que orientam a vida das sociedades, atribuindo um sentido e uma identidade coletiva e existencial é uma realidade histórica universal e um fato social evidente, que cumpre uma função coletiva e um papel de estruturação da psiquê. Não estou aqui a fazer um juízo de valor sobre as ideologias antigas e modernas, mas tão somente descrevendo, desde um olhar sociológico, a relação concreta das ideias com o meio social; e também a base "comunitária" e intersubjetiva das narrativas ideológicas. Levanto algumas questões: é possível vivermos sem uma ideologia? Nosso mundo está de fato saturado de ideologias ou assistimos ao fim dos projetos ideológicos coletivos de construção de um mundo novo? Quem diz pensar fora das ideologias e assumir uma postura puramente objetiva, asséptica e abstrata não está também no campo das ideologias? Um puro realismo transparente que reflete a realidade sem filtros não é uma pretensão ideológica? Não existiria uma ideologia contrária à existência de todas as ideologias? Parafraseando Sartre, a ideologia, tal como o inferno, está sempre e apenas nos outros. Parece que, muitas vezes, estamos sempre à procura de uma ideologia que tem a ambição de ser a verdade salvadora. A verdade minha e do meu grupo, que, claro, seria mais real e autêntica que a ideologia dos outros. Mas será que a verdade do meu grupo não é também uma forma explícita ou disfarçada de ideologia?

Não são apenas os conceitos e as ideias que influenciam e condicionam as ações e escolhas, mas também as concretas e objetivas estruturas materiais e de poder político. Os atores individuais e coletivos portadores de ideias não atuam no vazio e não são figuras puramente angelicais.


Desde certa perspectiva, são as estruturas políticas, sociais e econômicas reais que legitimam, difundem e impõem significados e crenças ideológicas das mais diversas, às vezes até conflitantes e antagônicas, com a finalidade de preservar e perpetuar certos mecanismos de poder e riqueza, assim como para conservar esferas de influência e possibilidades de ação.


A realidade nua e crua é que as restrições e pressões de natureza geopolítica, estratégica e econômica não podem ser negadas e deixadas de lado em uma análise sociológica séria e descomprometida. Em geral, as estruturas de poder e de autoridade, e, portanto, as armas de manipulação política e econômica e as operações de guerra de baixa intensidade são mais decisivas no mundo real contemporâneo, profundamente mecanizado e "solidificado", que ornamentos ideológicos e sistemas de significado.


Como alerta o antropólogo Ernst Gellner, o essencial é saber quem possui os mecanismos de coação física e, assim, quem pode empunhar as armas. Neste sentido, uma visão idealista da história e da vida social é uma forma de ingenuidade cognitiva e de refúgio no mundo aconchegante dos conceitos, das abstrações doutrinárias e da imaginação fantasiosa.


Um exemplo concreto disto ocorre na atual discussão sobre o globalismo e o progressismo. É evidente que não existiriam as ideologias mundialistas, multiculturais e dos direitos humanos sem a real e poderosa arquitetura institucional de poder global e, deste modo, sem a presença do sistema econômico capitalista liberal, justamente marcado por uma lógica de internacionalização, expansão ilimitada, acumulação infinita e flexibilização das fronteiras e muros de proteção social e moral. O globalismo como sistema de ideias e projeto de poder é um efeito desta rede institucional mundial criada pelas grandes potências do ocidente, pelas portentosas corporações multinacionais e pelos organismos transnacionais forjados e mantidos pelo establishment anglo-americano.


Outro exemplo de confusão cognitiva e percepção parcial e enviesada da realidade: é curioso que para um franja da intelectualidade esquerdista filocomunista e filopetista somente é certo e legítimo que o seu grupo tenha planos de ação, estratégias de combate ideológico e táticas permeadas de duplicidade, controle psicológico, bem como doutrina e ideário político. Unicamente eles podem ter contatos com redes internacionais e personalidades estrangeiras. Se a direita faz isto é conspiração dos americanos, é fascismo, é ditadura, militarismo e busca por hegemonia.


Existe aí uma inversão da realidade. O marxismo, o neomarxismo e o pós-marxismo são correntes de pensamento e práticas políticas com longa tradição em enganar, mentir, falsear a realidade e empregar discursos contraditórios para manipular os adversários. É esta uma ideologia fundada na ideia de produção de lutas sociais e conflitos de toda ordem. Além do mais, são os expoentes desta tradição intelectual e política especialistas em levantar, por razões táticas, falsas bandeiras jogando dialeticamente com estruturas polares como nacionalismo/ internacionalismo, e democracia / ditadura do proletariado. Como é sabido este movimento usa a democracia como um simples meio para no final destruí-la. Para chegar a esta simples conclusão basta ler Trotsky e estudar a experiência real do comunismo na URSS e em outras partes do mundo.


Enxergar malignidade e complôs somente na direita é no mínimo má-fé, para não dizer outra coisa. No final das contas, querem por meio de recursos retóricos refinados e conceitos sofisticados salvar o seu Lulinha e abrir uma nova janela para que a esquerda volte a dominar o mundo político e o universo da cultura, pois acham-se os detentores da verdade e do bem. Para eles, os conspiradores são sempre os outros, pois se percebem como os senhores da virtude e do sentido da história. Não aceitam de forma alguma a existência de perspectivas e alternativas conservadoras e tradicionalistas. Demonizando, ridicularizando, estigmatizando e "cancelando" qualquer ideia, valor ou linhagem de pensamento de "direita". No fundo, há nisto tudo, um certo ressentimento e ódio visceral por tudo o signifique ordem, autoridade, hierarquia, patriotismo, cristianismo e tradição.


É interessante notar que os marxistas/comunistas da velha e da nova guarda combatem ideologicamente a "burguesia" e o mundo burguês, contudo, ao fim e ao cabo, aspiram, desejam e ambicionam viver como os burgueses. Reduzem, sem hesitação, o homem aos aspectos puramente econômicos e materiais, buscando um estilo de vida de bem-estar físico e de mera satisfação das necessidades biológicas.


É o homem massa coletivizado, sem personalidade e liberdade, visto como um simples "proletário" o ideal antropológico máximo desta doutrina social materialista, que acaba por resumir a história das sociedades numa eterna luta entre classes econômicas exploradas e exploradores.


Porém, a realização prática do comunismo conduz ao fim destas ilusões de emancipação, comodidade e prosperidade, pois com a sua instauração efetiva tem início um totalitarismo opressor. Concretamente este sistema social é uma máquina geradora de misérias a qual propicia, paradoxalmente, o surgimento de uma nova elite de privilegiados, a nomenklatura, que, com base no terror, em mistificações, na mentira e na manipulação sufoca as aspirações mais elevadas da criatura humana.


O marxismo / comunismo baseia-se em uma antropologia unilateral e mutiladora, em uma sociologia determinista e em uma visão da história eivada de erros e sonhos messiânicos. Para eles, só existem os burgueses, o proletariado e a economia como destino. Todos os valores superiores e estilos de existência mais nobres são assim negados, ou vistos como uma superestrutura ideológica e o ópio do povo.


Não há nada de belo, verdadeiro e salutar nesta utopia secular tecnocrática e igualitarista que, vale sempre lembrar, possui todas as características de uma engenharia social que visa refazer o homem, percebido como um objeto e uma massa informe a ser moldada e, ainda, almeja com obstinação e furor titânico criar uma nova ordem social sem laços com a tradição e o passado.


É importante ressaltar que determinados campos da direita e da esquerda moderna e contemporânea parecem adotar uma postura redutora e, em parte, enganosa e fictícia da totalidade do real. É uma ilusão de certa direita: acreditar que apenas a Rússia, a China e os "comunistas" movem uma guerra psicológica e cultural contra o decadente mundo ocidental. Por outro lado, é uma ilusão própria de setores da esquerda old school: pensar que unicamente o “imperialismo yankee” produz e alimenta guerras híbridas pelo mundo.


Ambas ilusões são visões parciais que se retroalimentam. Além disso, acabam por "dividir” o terreno e semear algumas confusões e dissonâncias cognitivas, desorientado a plateia acerca da origem e dos métodos dos reais agentes deste obscuro teatro de operações; e em nada arranhando o poder das oligarquias globalistas e o sibilino e não linear processo multissecular da subversão mundial anticristã e antitradicional.


Como já expliquei em outras oportunidades, o conflito decisivo de nossa época está longe de ser reduzido ao embate entre os EUA (ocidente "democrático” e capitalista) e a Rússia e a China "comunista". Se é que realmente em algum momento ocorreu um verdadeiro embate entre as elites de poder que dirigem estas grandes potências. A cumplicidade oculta e as linhas de aproximação sempre caracterizaram a relação entre as oligarquias políticas e econômicas do bloco capitalista e do mundo comunista.


Internalizar os comandos do adversário e utilizar os códigos linguísticos e mapas cognitivos dele, acionando categorias e ideias fabricadas pelas centrais de “inteligência” e as usinas de pensamento do mesmo é começar a examinar de maneira errada e oblíqua o quadro de forças que atuam no cenário mundial. Os hipnotizadores procuram fazer com que nossa percepção, atenção, escolhas e ações sigam o roteiro por eles estabelecidos. Induzindo conflitos, disseminado falsas informações, provocando rumores e estimulando furtivamente posturas disruptivas e desestabilizadoras.


A verdade é que o mal apresenta múltiplas facetas, e as forças eversivas são sinuosas e variegadas, não se concentrando exclusivamente em um dado regime político, sistema econômico, povo, grupo ou nação. O mal apresenta um caráter de ordem criptopolítica, isto é, está intimamente relacionado com a ação de forças sutis, grupos de pressão globais e poderes indiretos que não aparecem de maneira visível e explícita, mas que organizam e dirigem os processos sociais e culturais por detrás dos bastidores. Concluindo esta reflexão, e utilizando um termo próprio da teologia cristã, pode-se afirmar que, em sua essência última, o mal possui uma origem preternatural e satânica.





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